3.4.13

O que é a verdade?


Oito cegos andavam juntos numa estrada da Índia, quando um homem conduzindo um elefante avisou a eles que saíssem da frente. Os cegos nunca tinham encontrado um elefante, e pediram ao condutor que lhes permitisse tocá-lo, para saberem o que, afinal, é um elefante. 
 
Recebendo a permissão, eles se aproximaram do animal enorme, de modo que um deles, ao se chocar contra a pata do elefante, gritou: “um elefante é como uma árvore!”. Mas outro, segurando o rabo do elefante, disse: “não, ele é como uma corda.” Outro pegou a tromba e concluiu que o elefante se parecia com uma cobra, outro tocou na orelha e achou que parecia com um abano... 


Para Platão a verdade é descoberta pela razão, porque está no mundo das idéias, o mundo dos sentidos é ilusório. Para Aristóteles o conhecimento da verdade vem da observação da natureza e em descobrir a causa dos fenômenos observados. Nas filosofias indianas o mundo das percepções, sentimentos e pensamentos é ilusório. A verdade é acessada pelo silêncio interior.

A ciência a que estamos acostumados nasceu no século XVI, e vê o mundo como uma máquina descrita pela matemática. A verdade é o conhecimento científico comprovado através de experimentos. “A visão, som, gosto, tato e olfato, a sensibilidade estética e ética, os valores, a qualidade, a forma, os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciência, o espírito – a experiência como tal – não pertencem ao domínio científico.” (R. D. Laing, psiquiatra)

Há quase cem anos toma forma outra visão científica, chamada de sistêmica ou orgânica ou holística ou ecológica: o universo não é uma máquina, é um todo dinâmico e indivisível. As explicações dos fenômenos não são “isto ou aquilo”, são “isto e aquilo”; o olhar do observador modifica o comportamento do observado; não existem objetos, existem interconexões; algo se modifica aqui e outro algo bem longe responde se modificando de modo complementar; tempo e espaço são duas faces da mesma coisa; a luz é onda e é partícula... tudo isso apenas no domínio da física.

O que, então, é a verdade?

16.6.12

O encantamento com a Vida


     Lembrei recentemente de dois fatos que me colocaram em contato com o Mistério da Vida. O primeiro, há muitos anos atrás ocorreu quando substituí uma amiga em um trabalho com crianças carentes. Eu caí de paraquedas, sem saber o que fazer. Levei bolas de futebol, papel e lápis de cor. As crianças não se entusiasmaram com as bolas (já faziam parte de seu mundo), mas se encantaram com os lápis de cor. Aquelas crianças de havaianas nos pés (na época eram baratinhas) em uma região bem fria, mal vestidas, de repente revelaram um brilho no olhar, um encantamento diante da possibilidade de criar...fiquei encantada com aquela Vida que se revelava maior que todas as carências e dificuldades.

     Outra situação, bem mais recente: estava numa região muito feia, poluída, carente de árvores, de beleza, de vida, muito triste com tudo aquilo quando de repente...uma revoada de pombas!!! Vida, no meio daquele deserto....

     Nestas duas situações minha reação foi: oh!!!!! sem pensamentos, sem palavras....apenas o encantamento.

22.1.12

Repensando o consumo: uma revolução necessária (e possível)


“Há uma piada sobre dois vendedores que viajam para a África representando suas respectivas empresas de calçados. O primeiro envia uma mensagem para a matriz: não mandem sapato algum, todos aqui andam descalços. A mensagem enviada pelo segundo foi: mandem dez milhões de pares imediatamente – todos aqui andam descalços. Essa velha anedota foi estabelecida como um elogio à perspicácia comercial agressiva e como condenação da filosofia empresarial predominante na época: dos negócios voltados para a satisfação de necessidades existentes, com as ofertas produzidas em resposta à demanda corrente. No entanto, nas poucas dezenas de anos que se seguiram, a filosofia empresarial completou uma virada....a finalidade do negócio é evitar que as necessidades sejam satisfeitas e evocar, induzir, conjurar e ampliar novas necessidades que clamam por satisfação e novos clientes em potencial, induzidos à ação por essas necessidades: em suma, há uma filosofia de afirmar que a função da oferta é criar demanda. Essa crença se aplica a todos os produtos – sejam eles fábricas ou sociedades financeiras. No que diz respeito à filosofia dos negócios, os empréstimos não são exceção: a oferta de empréstimos deve criar e ampliar a necessidade de empréstimos.
A introdução dos cartões de crédito foi um sinal do que viria a seguir. Foram lançados “no mercado” cerca de 30 anos atrás com o slogan exaustivo e extremamente sedutor de “Não adie a realização do seu desejo!” (Zygmunt Bauman, em “Vida a Crédito”).
Quem não viveu a experiência de atender a telefonemas de bancos ofertando cartões de crédito, mesmo que não tenha havido nenhum contato anterior com o estabelecimento em questão?
Consuma, mesmo que você não tenha dinheiro, endivide-se mesmo que não possa pagar – nós emprestaremos mais para que você possa quitar o(s) seu(s) cartão(ões) de crédito.
Não adie sua satisfação: seja como a criança que exige uma resposta pronta ao seu: “MAS EU QUERO!!!”. Aliás, ensine desde a mais tenra idade seus filhos a consumirem – basta para isso um pouco de TV todo o dia, expostos a uma massacrante propaganda dirigida diretamente às crianças, imaturas ainda para exercer um poder de crítica.
Há países aonde a propaganda dirigida às crianças é proibida; ela deve dirigir-se ao adulto responsável e apenas pode ser veiculada no horário noturno. A Fundação Alana luta para que medidas semelhantes sejam adotadas no Brasil.Recentemente ouvi em uma entrevista uma mãe defender o consumismo como uma forma de gerar empregos...penso, no entanto, que com a quantidade de pessoas existente no mundo, com certeza garantir os bens e serviços necessários para que todos vivam dignamente geraria empregos suficientes para todos.
Os recursos naturais estão escasseando, o lixo gerado pelo consumo inconseqüente é um problema insolúvel, somos mantidos infantis para que continuemos consumindo sem questionar, e isto gera conseqüências nefastas nos relacionamentos humanos...
Não seria o momento de refletir, de estabelecer prioridades realistas, baseadas em valores humanos (compaixão, sinceridade, cooperação)?. Antes de consumir analisar: que impacto o que estamos consumindo produz sobre a natureza? Que necessidade este produto atende? Esta necessidade é real, ou uma ilusão criada pelo mercado? Estou consumindo para preencher um vazio interno?

16.11.11

Orfeu, o herói de Escorpião

Orfeu ("o escuro") era filho do rei Ôiagro ("o que caça sozinho") e da musa da poesia heróica, Calíope, por isso e por seus dons como cantor ganhou de Apolo a lira feita por Hermes.

Seu canto atraía as aves, que voavam em torno dele, os peixes, que saltavam alto do mar para ouvi-lo... movia pedras e árvores, que o acompanhavam. Fez parte da tripulação do Argos, e com seu canto abafou o das sereias, salvando os Argonautas.

Metropolitan Museum
Voltando para a Trácia casou com Eurídice ("a que governa extensamente"), mas Aristeu ("o melhor", Zeus como deus dos mortos) se apaixonou por ela que, fugindo dele, foi picada por uma serpente venenosa e morreu.


Orfeu percorre toda a Grécia atrás dela, por fim segue pela estrada do reino dos mortos, como Héracles antes dele (mas não por amor). Seu canto comove Caronte, que larga seu barco e o segue; Cérbero não late ao ouvi-lo; Sísifo senta sobre sua pedra; Tântalo esquece a fome e a sede; os juízes dos mortos choram, e todos os mortos choram com eles. Perséfone se comove com o pedido de Orfeu e chama Eurídice com um gesto.

É lei do mundo subterrâneo que não se pode olhar para seus habitantes. Orfeu parte seguido por Eurídice mas, perto da saída, olha para trás, e a vê pela última vez: três ribombos de trovão e Hermes a leva.

Orfeu passa sete meses numa caverna, e ao sair se vê cercado por meninos adolescentes querendo ser instruídos. Ele os inicia nos Mistérios que trouxe da visita a Perséfone, instrui no ascetismo, e canta o começo das coisas e dos deuses. É um adorador de Apolo.

Uma madrugada, subindo a um monte para ver o sol nascer, surpreende o rito secreto das mênades a Dioniso. Elas o matam, esquartejam, e espalham os pedaços. A cabeça, espetada na lira, continua a cantar enquanto desce o rio.

Os mistérios órficos eram uma forma ascética de iniciação masculina, base da escola de Pitágoras. Seu criador mítico era o único herói (mortal), já que os de Elêusis e os dionisíacos tinham como iniciadores as deusas Deméter e Perséfone, e Dioniso, respectivamente. 
No mito de Orfeu o casamento sagrado - casamento com a deusa - aparece modificado, mas o nome de Eurídice a liga a Perséfone.


17.7.11

Parsifal e a busca do Graal - 1

O mito medieval de Parsifal ilustra o processo de individuação: a busca da própria identidade e da realização pessoal. O Graal é porém um símbolo muito mais antigo, da Idade do Bronze. 
Do mito oral surgiram as várias versões literárias, a mais antiga é francesa, do século XII. Seguiremos a alemã do século XIII, de Wolfram von Eschenbach, comentada por Joseph Campbell. As figuras são do manuscrito de Eschenbach.

O cavaleiro Gamuret vai para o oriente em busca de aventuras, e lá se casa com a rica rainha negra. Parte antes de ver o nascimento de Feirefiz, seu filho malhado de branco e preto.
No ocidente vence o torneio pela mão da rainha Herzeloyde, mas não deseja esse casamento, ao qual é obrigado por sua honra. Parte de volta ao oriente antes de ver o nascimento também deste filho, e lá morre em batalha.

Herzloyde chama o menino de "mon fils", "beau fils", e se retira com ele para um castelo na floresta, para que nunca queira seguir o caminho do pai. Ele cresce forte, amando o canto das aves e atirando nelas seus dardos, correndo livre pela floresta e ouvindo sua mãe falar dos anjos.

Parzival na floresta
Um dia vê numa estrada quatro homens a cavalo, em armaduras reluzentes, e se prostra pensando serem anjos. Os homens explicam que são cavaleiros, se quiser ser um deles, que procure o Rei Artur. Corre para contar à mãe e ela entende que o perdeu.
Para que ele desista, veste-o com roupas de palhaço, botas não curtidas, e lhe dá um pangaré por montaria. Diz-lhe para atravessar os rios no mais raso, ser respeitoso, procurar o conselho de homens de cabelos brancos, conseguir o anel e o beijo de uma dama honrada, e que seus dois reinos foram roubados pelo cavaleiro Lähelin. O filho promete vingá-la, e quando parte sem olhar para trás, ela cai morta.

O jovem anda sem saber para onde.
Encontra uma tenda onde uma bela mulher dorme seminua. Vendo um anel em seu dedo vai tirá-lo à força, e parte também com um broche e um beijo roubado. Chega o cavaleiro marido da dama que, ao vê-la sem o anel, rasga suas roupas e a obriga a segui-lo na busca pela vingança contra o homem que roubou sua honra.

E o jovem, sem qualquer culpa, segue caminho.
Encontra uma jovem com um cavaleiro morto no colo, que o reconhece como o filho da irmã de sua mãe, e lhe conta sua história e seu nome: "Parzival, partido ao meio, porque um falso amor partiu o coração de tua mãe". Seu cavaleiro morreu defendendo as terras dela.

E Parzival segue caminho e encontra um cavaleiro em armadura vermelha que desafiara o Rei Artur. Conduzido à Távola Redonda, Artur o sagra cavaleiro e ele parte.

Mata o Cavaleiro Vermelho com um dardo no olho  - dardos são proibidos para um cavaleiro.

No castelo de Gurnemanz
Como não sabe frear o cavalo galopa todo o dia, até ver pescando o idoso Príncipe Gurnemanz, que o hospeda. Com ele aprende a ser um cavaleiro, em armas e em regras de conduta: ter senso de honra, ser compassivo com os necessitados, não esbanjar nem acumular riquezas, não fazer muitas perguntas, responder honestamente, ser viril e de bom ânimo, não matar um inimigo que suplique clemência, ser leal no amor e que marido e mulher são um único ser. Não aceita casar-se com a filha de Gurnemanz e parte em busca de seu caminho.

Conduiramurs
Chega a um castelo defendido por cavaleiros magros, onde é recebido com um pedido da rainha virgem, Conduiramurs: salvá-la do rei que sitiou seu castelo para forçá-la ao casamento. Parsifal vence e imediatamente chegam navios com víveres.

Por três noites Parzival e Conduiramurs partilham do leito sem se tocarem: suas almas se casam antes de seus corpos. Depois de alguns meses de felicidade, Parzival pede permissão para visitar a mãe.

Depois de descobrir seu nome, ser iniciado nas artes da cavalaria, vencer as lutas e casar por amor, Parzival iniciará sua busca.

a ser continuado...

30.6.11

Aquiles, o herói canceriano

O herói principal da Ilíada de Homero teve um nascimento maravilhoso.

Sua mãe, Tétis, neta de Oceano, sendo a mais bela entre suas cinquenta irmãs, foi cobiçada por Zeus, rei do Olimpo. Mas Têmis, a titânide da lei divina, avisou-o que o filho nascido da bela oceânide seria mais poderoso que o pai.

Zeus - e seu irmão Posídon, que também a desejava - desistiram da corte, e foi determinado pelo patriarca que ela se casaria com um mortal.
Hera ajudou sua protegida a se casar com o mais piedoso e belo dos mortais, Peleu, que no entanto tinha uma história infeliz: educado pelo bondoso Quíron, mais de uma vez fora injustamente perseguido.

Nas noites de Lua cheia Tétis sai à praia para dançar com suas irmãs. Peleu a espera escondido, abraça-a numa luta de amor, e não se assusta quando ela se transforma em fogo, em água, em animal com dentes de leão, em cobra... e por fim se torna um peixe delicado e cede.

Depois da noite de núpcias numa cabana no campo, como era costume, acontece a festa com a presença de todos os deuses. Posídon deu a Peleu dois cavalos imortais, Quíron lhe deu uma lança de freixo... Mas Éris, a deusa da discórdia, não foi convidada. Barrada na porta, atira uma maçã de ouro "à mais bela", e as três deusas mais poderosas se arrogam o direito de pegá-la: Hera, Afrodite e Atena (o conceito de beleza aqui não é apenas físico, mas "a mais alta de todas as coisas boas do mundo").

Nenhum dos presentes ousaria ser juiz nessa disputa, e Zeus escolhe um jovem pastor do sopé dos montes Ida para decidir.

Páris não é um pastor comum. Irmão mais novo de Heitor ("o sustentador"), sua mãe Hécuba, grávida, sonha que dá à luz um tição que incendeia a cidade onde reina seu marido Príamo: Tróia. Cassandra, filha do rei e que recebeu de Apolo o dom da profecia, manda que o bebê seja morto. Exposto no monte Ida, reino da Senhora das Coisas Selvagens, uma ursa o alimenta, e um pastor o recolhe.
Hermes chega com as três deusas à presença do jovem, que se arrepia e tenta fugir.
Entre a vitória e o heroísmo, o império sobre Ásia e África, e a posse de Helena - famosa como a mais bela mulher do mundo - Páris escolhe a última e, como um adolescente incauto, ofende as outras duas deusas.

Peleu e Tétis vão governar a Ftia.

Príamo tem cinquenta filhos, e muitas filhas. Tróia tem a maior casa real de seu tempo. Hécuba, a rainha, é a Hécate frígia: derrotada, se transformará em cadela e se jogará ao mar como Cila. 

Tétis tem um filho, que recebe um nome de rio: Aquiles. Para torná-lo imortal, mergulha-o no Estige, segurando-o pelos pés. Peleu a surpreende e se desgosta: Tétis passa parte do tempo no mar com seu pai Nereu, e Peleu envia Aquiles a seu mestre Quíron para ser educado. Em sua caverna, Quíron o alimenta com entranhas de leões e javalis e tutano de urso, ensina-lhe a arte de curar, as maneiras gentis, e a tocar um instrumento de cordas.

No casamento de Tétis as Moiras ligam o destino de Aquiles a Tróia, por isso, aos 9 anos, a mãe o esconde no harém de um rei, como menina (Pirra, "cabeça vermelha"). As Moiras lhe dão "vida longa e comum ou curta e gloriosa".

Páris chega a Esparta quando Menelau, marido de Helena, está viajando. Afrodite faz com que a imortal rainha se apaixone pelo jovem, e ambos partem para Tróia levando tesouros da cidade. 
A aliança arquitetada por Ulisses entre os antigos pretendentes de Helena obriga todos a se unirem a Agamenon, rei de Micenas e irmão de Menelau, no exército que atacará Tróia, mas só depois de dez anos começa a viagem.

Ulisses decide levar Aquiles para a guerra, e arquiteta um plano para descobri-lo entre as mulheres, uma das quais, Deidêmia, estava grávida de seu filho, Pirro.
Peleu dá ao filho seus cavalos, que Atena torna falantes, e sua lança. Tétis encomenda a Hefesto uma armadura inexpugnável para seu filho.

O mais belo herói da guerra de Tróia desembarca matando na praia um ser primevo, o que põe em fuga os troianos. Tróia é cercada. Apenas mulheres saem para buscar água num poço, acompanhadas por um menino a cavalo, Troilo, filho de Hécuba, até o dia em que Aquiles arranca o menino de cima do cavalo e o decapita no altar de Apolo.

Apolo, Afrodite, Ares e outros deuses estão do lado de Tróia, contra Hera, Atena e outros deuses, que protegem os gregos. 
Apolo protege os adolescentes do sexo masculino, esta morte o ofende.

Por nove anos, como previsto pelos sacerdotes, os gregos matam e pilham nas cidades em redor de Tróia. A bela rainha Briseida é tomada como concubina por Aquiles depois que este lhe mata o marido e os irmãos. Criseida, filha do sacerdote de Apolo, fica para Agamenon, depois que Aquiles mata o rei e seus sete filhos - pai e irmãos de Andrômaca, esposa de Heitor.
O pai de Criseida procura Agamenon com vultoso resgate pela filha, mas Agamenon nunca cede uma mulher, e maltrata o sacerdote. Apolo incita Aquiles a censurar o rei, e a discussão entre ambos desperta a ira de Aquiles e o leva a se recolher em sua tenda.

Apolo envia uma peste que mata os animais e depois os soldados gregos, por isso Agamenon devolve Criseida, mas toma em seu lugar Briseida, por quem Aquiles se apaixonara e era correspondido. 
Aquiles se recusa a participar da guerra com seus homens, e os gregos passam a ser derrotados.
Pátroclo, amigo inseparável de Aquiles, consegue sua armadura emprestada com a recomendação de não atacar Tróia. Entusiasmado por estar invulnerável ele escala os muros e acaba morto por Heitor. 
A dor pela perda leva Aquiles a atacar, apesar do aviso de Tétis: "quando Heitor cair, tua morte estará próxima".


Heitor, marido e pai amoroso de seu filho bebê, sabe que vai morrer e que Tróia acabará, quando se despede da esposa Andrômaca. É o mais nobre caráter retratado por Homero.  

Aquiles mata Heitor e arrasta seu corpo com seus cavalos, não permitindo que seja enterrado. Na pira funerária de Pátroclo mata 12 jovens troianos. Com a ajuda de Hermes o velho rei Príamo atravessa o campo grego e consegue de Aquiles o corpo do filho para lhe prestar as honras fúnebres.

Aquiles e Pentesiléia, c. 540 a.C.
Pentesiléia é morta por Aquiles ao liderar as amazonas, aliadas de Tróia. Só ao matá-la ele percebe sua beleza.
Perto do altar de Apolo é morto por uma seta de Páris - como previra Heitor moribundo -, cuja mão foi guiada pelo deus até o calcanhar do herói.

Ájax e Ulisses demoram um dia para conseguir levar o corpo através do troianos. Seus ossos foram unidos aos de Pátroclo, como era desejo de ambos.
Ou Tétis arrancou o cadáver da pira funerário e levou Aquiles para a Ilha dos Bem-aventurados, dos imortais, onde se uniu a Medéia, ou talvez Ifigênia, ou a mesma Helena. 

Aquiles teria preferido a ação a esse tipo de imortalidade, e só se alegrou ao saber que seu filho ocupou seu lugar na guerra.

Fontes: Karl Kérènyi, Os heróis gregos; Homero, Ilíada

11.6.11

O espírito do tempo presente

Estamos perto do solstício de inverno. No último equinócio conversamos aqui no Espaço Coaraci sobre a moldura arquetípica do período de mudanças que estamos vivendo, em toda a Terra. Este espírito do tempo - Zeitgeist - faz parte de um continuum, é claro, e foi em torno de momentos marcantes dessa sucessão que versou nossa conversa.

O mapa deste equinócio, março de 2011, mostra a configuração desafiadora entre Júpiter, Saturno, Urano e Plutão, que tem estado no céu, de uma forma ou outra, desde o começo do milênio.

Zeus e Hera (Júpiter e Juno)
A moldura social, feita pelos planetas Júpiter e Saturno, é o ciclo iniciado em maio de 2000. Esse ciclo dura 20 anos. Júpiter representa a expansão, e Saturno os limites: dentro destes parâmetros se processa a vida das sociedades humanas. Além do ataque às torres do WTC em NY, e a invasão do Afeganistão, houve o começo da demolição sem aviso prévio de casas palestinas por Israel e o seqüestro do ônibus 174 no Rio, onde a marca de Plutão e Urano afetam os dois planetas sociais, dando o tom do ciclo. A maré vermelha na China, o degelo da Groenlândia, são outra forma de expressão destes mesmos arquétipos dos planetas modernos (visíveis apenas com ajuda de aparelhos). Por outro lado, começa a preocupação com a preservação dos Everglades nos EUA, e do Mar Egeu entre Grécia e Turquia. A 3M deixa de produzir Scotchguard devido aos danos que causa ao ambiente. No Brasil, 200 autoridades são relatadas como envolvidas no tráfico de drogas.

Em 1961, num início de ciclo Júpiter-Saturno, Jânio Quadros tomou posse como presidente do Brasil.

Outro ciclo que se inicia é o de Júpiter e Urano, que dura cerca de 14 anos. Ao mesmo tempo existe uma quadratura entre Júpiter e Plutão (este ciclo também dura cerca de 14 anos, a teve início em 2007). Urano simboliza a mudança, a libertação, e Plutão representa a destruição e regeneração.

Estes três planetas - Júpiter, Urano e Plutão - estavam em conjunção em 1968 (e alguns anos antes e depois), ano muito importante para a história posterior, pelas rebeliões sociais e políticas - pelos direitos civis para os negros nos EUA, pela igualdade das mulheres, contra a guerra do Vietnã, contra as armas nucleares, a greve geral na França, a "primavera de Praga", as revoltas estudantis no Brasil.

Por outro lado, Saturno estava oposto à conjunção dos três planetas, e houve os assassinatos de Martin Luther King e de Robert Kennedy, o massacre de My Lai, a repressão da URSS na Tchecoslováquia, o AI-5 no Brasil. Saturno e Plutão, nestes casos, indicam crise e contração, como no início das duas guerras mundiais do século XX, na ascensão do nazismo e na crise das bolsas de 1929, quando estavam em aspecto tenso.

Em 1968 tivemos portanto a interação entre:
  • Júpiter-Saturno (ciclo de 20 anos)
  • Júpiter-Urano (cerca de 14 anos)
  • Saturno-Urano (cerca de 45 anos)
  • Júpiter-Plutão (cerca de 14 anos)
  • Saturno-Plutão (cerca de 35 anos)
  • Urano-Plutão (cerca de 130 anos)
Deste modo, a época emoldura o tempo presente pela importância do que aconteceu então, e ao mesmo tempo ilustra o que podemos esperar desse começo de século XXI, onde temos aspectos entre:
  • Júpiter-Saturno (em 2001 e em 2011)
  • Júpiter-Urano (em 2010-11)
  • Saturno-Urano (2008 a 2012)
  • Júpiter-Plutão (em 2008 e em 2011)
  • Saturno-Plutão (2008-11)
  • Urano-Plutão (2007- a 2020)
E Netuno, o planeta da integração, dissolução, transcendência?

O ciclo Urano-Netuno (170 anos) começou no final do século XX. Mas a conjunção entre Netuno e Plutão marca períodos definidos da história, pois acontece a cada 495 anos. Estamos no começo - em termos - de uma dessas eras de meio milênio: o século passado começou com essa conjunção, marcando a solidificação do capitalismo financeiro. A era anterior começara na Renascença, que foi também o início do capitalismo comercial, causa da vinda dos europeus para a América.

Uma moldura mais ampla ainda foi a conjunção, única desde que o ser humano registra a história, entre Urano, Netuno e Plutão, em torno de 580 a.C.. Richard Tarnas, cujas indicações estou seguindo neste tema, chama esse período de seminal, pois nele viveram os filósofos gregos pré-socráticos, Buda, Confúcio e, pouco antes, Zoroastro.