24.10.19

Astrologia e dinheiro


Antes que você pense que a astrologia te ensina a ganhar dinheiro, vamos conversar sobre para que a astrologia serve – o que ela faz.
Cédulas de vários países - Wikimedia
Astrologia não é previsão de futuro, isto seria adivinhação. Pode ser uma forma de interpretar o passado, entender porque aquilo aconteceu naquela época. A grande utilidade da astrologia é traduzir o Zeitgeist – o espírito do tempo – termo que se refere à complexidade de relações atuando num período. Para captar o espírito do presente – e agir, no presente, com responsabilidade – é preciso aprender as lições do passado. É também preciso estar se desenvolvendo como a pessoa que você nasceu para ser: um ser dotado de uma consciência sempre em expansão e que assume a responsabilidade por si mesmo e por sua atuação no mundo.

O assunto

Dinheiro: o que é?
A astrologia já existia quando o dinheiro foi inventado, foi preciso adaptar um conhecimento anterior para colocar o dinheiro em algum lugar do mapa. Que lugar é esse? A tradição européia, cartesiana, de uma astrologia para ricos e poderosos, coloca o dinheiro como propriedade – rico tem dinheiro, certo? Mas dinheiro é moeda corrente, é liquidez. Moeda de troca, que veio substituir o escambo, em que se troca uma mercadoria por outra. Ninguém pensaria em produzir feijão e guardar indefinidamente em casa: ele é plantado para ser consumido, e o excedente trocado por arroz, por exemplo.
Três casas do mapa – as casas são a expressão de todas as possibilidades de experiência de um ser vivendo na Terra – falam da parte material da experiência. A posição que se ocupa no lugar onde se vive, o que se tem ao ocupar esta posição, e o que se troca, dinamizando esta posição. Alguém pode ser o pescador da vila, ter seu barco e sua rede, e trocar seus peixes e seu conhecimento sobre peixes com outras pessoas. Então o dinheiro vai – ou não – entrar nas trocas. Pode haver escambo, o pescador pode ter construído seu barco, como ainda acontecia no litoral de SP no século XX. Esquematizando:
o pescador casa 10 posição
o barco, a rede casa 2 posses
o peixe pescado casa 6 trabalho, técnica

Quando a coisa não dá certo

Você está pensando que a vida é muito mais complexa que isso... e é mesmo. Continuemos, pois.
Destas três casas, a 10 é cardeal – inicia o tema – a posição do pescador na aldeia. As posses permitem manter a posição – a casa 2 é fixa – o pescador tem a rede, o barco e seu conhecimento. As trocas, o trabalho, modificam as duas anteriores – a casa 6 é mutável. É mutável porque depende da casa cardeal que vem em seguida, a 7, casa das relações sociais. O pescador troca com alguém, recebe dinheiro ou outra mercadoria e os dois saem com algo de valor para si.
Conclusão óbvia: a área material pode não dar certo porque “nenhum homem é uma ilha”.

O que fazer?

Wikimedia Commons
Como eu disse acima, astrologia não é cartesiana, é pura complexidade. Não tem isso de uma causa → um efeito. Vamos situar o dinheiro em relação a outros capitais que podemos ter.
Capital material: estivemos falando disso, dinheiro, mercadorias fluindo entre pessoas. Vem da posição que se ocupa, do uso dos meios para mantê-la, é o que flui como resultado.
Capital social: relações com pessoas. Relações de pessoa a pessoa formam um conjunto estável do grupo a que se pertence, com que quem se troca informações as mais diversas. Casas 7, 11 e 3, respectivamente.
Capital cultural: cada pessoa se identifica com sua cultura, que modela sua personalidade. Claro que essa modelagem é grande no começo da vida mas, à medida que a pessoa adquire mais consciência e mais conhecimento, torna-se capaz de modular isto pela vontade pessoal. A personalidade estável age no mundo, e se modifica pelas trocas com outras pessoas de cultura diferente. Casas 1, 5 e 9.
Capital psíquico: a parte silenciosa e profunda da vida. Valores alimentam a alma desde o começo da vida – espera-se que sejam nutrição, amor, compartilhamento – e permitem o desenvolvimento de uma psique estável, equilibrada e profunda, aberta ao desenvolvimento crescente através da percepção de pertencimento ao todo mais amplo: da humanidade, de todos os seres vivos, do universo. Casas 4, 8 e 12.
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Esse quatro capitais fazem girar a roda da vida, porque levam à transformação: tudo que é vivo está em constante transformação.
O capital material chama e depende das relações sociais (casas de ar), as relações dependem de, e transformam a consciência psíquica (casas de água), a vida da alma amplia a consciência e a cultura (casas de fogo) que, fechando o ciclo, transforma a posição no mundo.
Aplicando este quadro ao momento presente em sua vida, na cultura em que você se insere, avalie o quanto você permite o fluxo de seus quatro capitais, e você estará encontrando respostas para vários de seus problemas.

10.9.19

Chakras: rodas e círculos

Imagem: Wikimedia Commons
 

De vez em quando algum aluno volta a me perguntar sobre os chakras, que originalmente fazem parte do tantra, e não da filosofia sânquia à qual o ioga está ligado. A Índia não é só antiga, é também grande, e se hoje existem lá dezessete idiomas oficiais – sem contar os dialetos – é porque em toda sua história foi casa de muitos povos diferentes. Claro que as culturas se misturaram, assim o bramanismo – hinduísmo atual – incorporou as práticas do ioga e os chakras se uniram ao conjunto. 

    Num apanhado rápido segue uma relação entre chakras, nadis como vistos pelos chineses, isto é, meridianos, e a relação destes meridianos com as emoções primárias. Mas tudo isso de acordo com minha interpretação, recomendo reflexão sobre o assunto.


    Os três primeiros chakras ligam-se à sobrevivência, são viscerais na expressão. 


    O primeiro, localizado no períneo, está ligado aos quadris como fonte do movimento das pernas, portanto se liga ao impulso de movimento, representado pelo meridiano da vesícula biliar. A emoção básica de vesícula e fígado é a raiva: impulso de atacar. Sua influência se estende aos membros inferiores, que se movem seguindo a lemniscata que os quadris descrevem no andar.


    O segundo fica no baixo ventre, e se relaciona com a bexiga, ligada ao medo, emoção que paralisa. Rins e bexiga são órgãos da função de eliminação. 


    O terceiro chakra fica no abdômen, e está relacionado ao estômago – por extensão à digestão como um todo – e sua emoção é o nojo, o impulso para se afastar. Sua área de influência é grande, abrange os intestinos delgado e grosso, vísceras, e os órgãos baço e pâncreas. 


    Estes três chakras se expressam nas funções psíquicas da percepção e intuição – funções de apreensão da realidade, ou parte por parte ou como um todo. Estas três emoções viscerais são a base para o desenvolvimento das outras duas que, veremos a seguir, são de outra ordem.


    O quarto chakra se localiza no peito. Seu órgão é o coração, e a emoção é a alegria. Mal compreendida neste mundo um tanto triste e raivoso, a alegria é a base do sentimento, mas este é uma construção cultural. É a alegria que impulsiona em direção ao exterior, ao contato com outros seres humanos, e que por sua vez deriva desse contato. 


    O quinto chakra fica no pescoço. Liga-se às vias respiratórias, seus órgãos são os pulmões. Sua emoção é a tristeza, base do pensamento, da reflexão. É o impulso para dentro, a introversão. 


    Pensamento e sentimento são funções racionais, são construção coletiva de uma cultura, são aprendidos. Coração e pulmões se situam no tórax, separados do abdômen pelo diafragma. São inseparáveis: alterando a respiração se altera o ritmo cardíaco. A neurociência demonstrou que o pensar é construído a partir do sentir. São duas funções – e emoções correspondentes – tipicamente humanas. 


    Os dois chakras do crânio pertencem a outra ordem. Pensar e sentir são a base para a evolução da consciência. No sexto chakra temos um nível de consciência de união com a totalidade do universo que não inclui o senso do eu – é a consciência profunda do vivo, que se manifesta pelo funcionamento de glândulas básicas como a hipófise e a pineal, e do tronco cefálico, que regula todo o funcionamento do organismo incluindo as emoções básicas.


    O sétimo chakra se estende por todo o córtex cerebral. É a consciência habitual, desperta, onde várias partes do córtex formam – e evocam – o tempo todo imagens visuais, sonoras, auditivas... que se unem numa construção pessoal que chamamos de realidade. É este chakra que permite, para quem a procura, a ampliação voluntária da consciência através dos vários níveis já percorridos pelos seres humanos desde nossa origem e por toda nossa evolução.    

18.12.18

Yoga, astrologia, e ser

    Cada vez mais o yoga é procurado não só pelo aspecto físico, mas por ser uma prática  integral. No caos da vida urbana se sabe que a doença física e as questões emocionais são dois aspectos da falta de equilíbrio. Existe uma busca crescente por práticas que tragam serenidade, o que é necessário para dar um sentido à existência.


    Os textos de yoga falam sempre do ashtanga – as oito partes do yoga – que começam com a ética: a primeira ocupação de um praticante se refere a suas relações com outros seres. Embora pareça que as oito partes sejam uma sucessão, elas são concomitantes. A meditação não substitui a ética na vida mundana, por exemplo. Nas filosofias da Índia não há separação entre pensar e ser, entre vida intelectual e vida espiritual, ou qualquer outra separação. A prática é um caminho de desenvolvimento pessoal, que nunca acaba, e que se renova a cada dia.

    Na história dos povos, incluindo os ocidentais, sempre houve duas abordagens complementares do real: a racional e a simbólica. Isto anda esquecido e até mesmo perseguido há alguns séculos, mais em algumas épocas e menos em outras. E nas duas direções: Galileu foi perseguido por ser racional, opondo-se ao mito do homem como cereja do bolo da criação divina e portanto habitante do centro do universo; o altar cristão da Notre-Dâme de Paris durante a Revolução Francesa foi substituído por um altar à liberdade.

    Como yoga é união, também esta síntese faz parte da integração do praticante. Cada um desses dois discursos, o lógico e o mítico, tem sua função, sua esfera de ação. Viver no mundo atual, tecnológico, é viver no mundo lógico da ciência, e também no contexto abordado pela história, política, e outros ramos do conhecimento objetivo: função da consciência objetiva em cada um de nós, aquilo em nós que olha para fora em busca de compreensão, de conhecimento sobre o mundo.

    A função mítica foi substituída em parte pela ciência – que desenvolveu explicações objetivas do universo material em substituição à abordagem arcaica – em parte pela psicologia – ciência humana que acumula conhecimento sobre os tipos de pessoas e sobre o desenvolvimento – e em parte pela sociologia e política – ciências humanas das interações sociais. Mas a quarta função dos mitos, a simbólica, não foi substituída pelas filosofias e as religiões.

    A função do símbolo é unir o indivíduo ao todo, ao mistério, de forma direta, sem a intermediação da mente. O mito sempre esteve por trás dos rituais, e a função do ritual é provocar uma modificação na consciência. É a consciência subjetiva que faz este caminho, a consciência que busca conhecimento através de caminho interno, solitário. Os rituais têm guias, que conduzem a pessoa até a porta do lugar “de onde as palavras voltam”. Mas se entra sozinho.

    O desenvolvimento da consciência inclui as duas vertentes: estar no mundo exterior e no mundo interior. Na prática de yoga a meditação é a experiência interior, a busca interna de contatar o todo, conhecer a conexão de si próprio com a totalidade. A busca da  astrologia é a da expressão pessoal desta conexão ao colocar no mundo sua verdade interna – aquilo que cada pessoa descobre ser sua verdadeira intenção na vida, conhecida não pela razão mas ao contatar pessoalmente a Fonte.
   
   

30.8.18

Tai chi e imunidade

O pensamento chinês não separa mente e corpo, e suas práticas tradicionais de
medicina atuam ao mesmo tempo sobre esses dois aspectos inseparáveis da vida. O tai
chi, preventivo e curativo, harmoniza a energia ao fazê-la fluir. Sua prática regular tem
efeitos há muito constatados sobre doenças como a tuberculose.

A ciência ocidental constatou, nos últimos quarenta anos, a relação íntima entre
mente (sistema nervoso), hormônios e sistema imunológico. Esta é uma nova visão do
organismo, não mais como uma máquina cujas peças podem ser trocadas e que precisa de intervenção externa para continuar funcionando, mas como um sistema integrado onde as diferentes funções se comunicam e interagem. Esta comunicação norteia inclusive os
mecanismos de reparação a partir de dentro.

As moléculas de emoção encontradas no cérebro são as mesmas das células
imunológicas. Isto explica porque a imunidade cai quando persistem sentimentos
negativos: nessas situações faltam as moléculas que se ligam às células de defesa e
as ativam. Os pontos dessas células onde faltam moléculas de emoção ficam livres, e
neles se ligam agentes causadores de doenças, como víruses.

Os praticantes regulares de tai chi desenvolvem uma forma centrada de
reconhecer as emoções, e um modo pacífico de trabalhar com elas. A ciência ocidental
tem demonstrado nos últimos vinte e cinto anos os benefícios desse poder adquirido
sobre o sistema imunológico:
  • melhora a recuperação pós-cirúrgica do câncer de pulmão1
  • aumenta a eficiência das células de defesa2
  • numa revisão que incluiu setenta e sete artigos científicos, seis apontavam um aumento da imunidade.3
Outros efeitos apontados no último estudo foram:
    • aumento da densidade óssea (quatro artigos),
    • efeitos sobre pulmões e coração (dezenove),
    • melhora da condição física (dezesseis),
    • diminuição de quedas e fatores de risco correlatos (vinte e três),
    • melhora na qualidade de vida (dezessete),
    • aumento de auto-suficiência (oito),
    • redução de sintomas psicológicos (vinte e sete),
    • outras melhoras relatadas pelos pacientes (treze).
Veja artigos sobre a prática de tai chi no tratamento de doenças específicas:
Artigos científicos sobre medicina complementar

Fontes:
Molecules of emotion – Candace Pert
O ponto de mutação – Fritjoff Capra
Tai chi chuan e meditação – Da Liu 

Notas: 
1 Regular tai chi exercise decreases the percentage of type 2 cytokine-producing cells in postsurgical non-small cell lung cancer survivors. - Wang R, Liu J, Chen P, Yu D.
2 Regular tai chi chuan exercise enhances functional mobility and CD4CD25 regulatory T cells - S-H Yeh, H Chuang, L-
W Lin, C-Y Hsiao, H L Eng
3 A Comprehensive Review of Health Benefits of Qigong and Tai Chi - Roger Jahnke , OMD, Linda Larkey , PhD, Carol Rogers , APRN-BC, CNOR, PhD, Jennifer Etnier , PhD, and Fang Lin , MS. 2009

22.8.17

Meditação e vida diária


Onde vou falar sobre saúde, ego, preconceitos e felicidade
Há pouco tempo no grupo de meditação começou uma conversa sobre kriyas. “Se eu praticar, elimino as toxinas da alimentação?” Citei o mahamudra: Iyengar disse que ele tem a reputação de eliminar até veneno de cobra. Com certeza é muito mais antigo que o soro antiofídico. Mas se você é um brasileiro em cuja alimentação 70% dos itens contêm agrotóxicos, é suficiente praticar os kriyas? Já pensou em mudar para alimentos produzidos organicamente?
Thai (Thich Nhat Hanh), monge budista vietnamita, propõe uma meditação participante no mundo. Durante a Conferência do Clima em Paris seus mosteiros mantiveram monges meditando em período integral, para iluminar as mentes dos tomadores de decisão.

Meditar é ir para o centro, e o que está lá não é o ego, não é individual, é coletivo, é universal.
Ao optar pelos orgânicos dizemos não aos agrotóxicos – que também matam os trabalhadores rurais – e dizemos não aos transgênicos que destróem o equilíbrio da natureza, dizemos não ao trabalho escravo, dizemos não ao latifúndio. Isto porque a certificação obedece a padrões éticos do movimento orgânico.
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Meditação é atenção. O ego – criação cultural, líquido, que muda o tempo todo – cessa de existir, o tempo cessa, o presente é a eternidade.
Como isto é extremamente difícil de entender, David Bohm se esforçou em traduzir para o ocidente esta idéia oriental. Cientista, físico quântico, diferencia o processo do pensar dos produtos deste processo, isto é, os pensamentos. Começa por explicar que essa distinção é a base do fazer ciência, e a estende para toda atividade humana. O processo dito da educação na nossa cultura é apenas um treinamento para inserir e evocar na memória pensamentos já pensados anteriormente e que dão forma à sociedade como ela é.
Pensar – o processo – é estar atento, observar, e analisar o que é a verdade do observado.
Analise, como exemplo atual, o que aconteceu em Charlottesville. Em que reside a superioridade dos brancos nos EUA? Na porcentagem da população que formam? De fato, excluídos os latinos, que somos multirraciais, os estadunidenses brancos são mais de 60% da população. Isto é, considerando que semitas não são brancos, mas apenas os ditos caucasianos. (Este pensamento não tem fundamentação científica, raça é um conceito abandonado há muito tempo, e hoje até o conceito de espécie não é seguro).
Mas, em tempos de globalização, olhamos o mundo todo e vemos que os tais caucasianos são 7% da população mundial. Mesmo nos EUA, entre as crianças até 5 anos de idade, os brancos não são mais maioria.
Vamos pensar então se a superioridade é qualitativa. Os brancos se classificam melhor em testes de matemática, por exemplo? As provas e olimpíadas mais recentes tiveram asiáticos nos primeiros lugares. EUA foram superados no Rio, ficando em quarto lugar. 60% da população mundial vive na Ásia.
Podemos parar a análise por aqui, mas sobre o racismo nacional acrescento que no Brasil já existe maioria negra. Fora da África, é o país com maior número de negros.
E a relação disto com meditação?
Meditar não é como tomar banho, que você faz todo dia durante 20 minutos e passa o resto do tempo se sujando. Sentar para meditar é uma preparação para viver em meditação. Atento. Consciente de ser parte da humanidade e ter uma função dentro dela. Consciente de que estamos todos unidos entre nós e a todos os outros seres que vivem na Terra. 

E feliz por isto.

10.9.16

O aparigraha de Davi Kopenawa


“Os objetos que fabricamos, e mais ainda os dos brancos, podem durar muito além do tempo que vivemos. Eles não se decompõem como as carnes de nosso corpo. Os humanos adoecem, envelhecem e morrem com facilidade. Já o metal dos facões, dos machados e das facas fica coberto de ferrugem e sujeira de cupim, mas não desaparece tão depressa! Assim é. As mercadorias não morrem. É por isso que não as juntamos durante nossa vida e nunca deixamos de dá-las a quem as pede. Se não as déssemos, continuariam existindo após nossa morte, mofando sozinhas, largadas no chão de nossas casas. Só serviriam para causar tristeza nos que nos sobrevivem e choram nossa morte. Sabemos que vamos morrer, por isso cedemos nossos bens sem dificuldade. Já que somos mortais, achamos feio agarrar-se demais aos objetos que podemos vir a ter. Não queremos morrer grudados a eles por avareza. Por isso eles nunca ficam muito tempo em nossas mãos! Nem bem acabamos de consegui-los e logo os damos a outros que, por sua vez, os querem. E assim as mercadorias se afastam de nós depressa e vão se perder nas lonjuras da floresta, carregadas pelos convidados de nossas festas reahu ou por outros visitantes. Desse modo, tudo está bem. Seguimos as palavras de nossos ancestrais, que nunca possuíram todos esses bens trazidos pelos brancos. 
 
Quando um xamã morre, seu fantasma não leva nenhuma das suas coisas para as costas do céu, mesmo que seja muito avarento! Os objetos que tinha fabricado ou conseguido por troca são abandonados na terra e só fazem atormentar os vivos, atiçando a saudade. Então dizemos que esses objetos estão órfãos e que nos causam pesar, porque estão marcados pelo toque do falecido. Por isso, se um de meus filhos ou minha mulher morressem, as coisas em que costumavam mexer guardariam o rastro de seus dedos. Eu teria de queimá-las chorando, para acabarem para sempre. Como eu disse, as mercadorias duram muito tempo, ao contrário dos humanos. Por isso devem ser destruídas quando morre o dono, mesmo que seus familiares precisem delas. Assim é. Nunca guardamos objetos que trazem a marca dos dedos de uma pessoa morta que os possuía!
Davi Kopenawa


Somos diferentes dos brancos e temos outro pensamento. Entre eles, quando morre um pai, seus filhos pensam, satisfeitos: ‘Vamos dividir as mercadorias e o dinheiro dele e ficar com tudo para nós!’ Os brancos não destroem os bens de seus defuntos, porque seu pensamento é cheio de esquecimento. Eu não diria a meu filho: ‘Quando eu morrer, fique com os machados, as panelas e os facões que eu juntei!’ Digo-lhe apenas: ‘Quando e não estiver mais aqui, queime as minhas coisas e viva nesta floresta que deixo para você. Vá caçar e abrir roças nela, para alimentar seus filhos e netos. Só ela não vai morrer nunca!’ É verdade. Achamos ruim ficar com os pertences de um morto. Nos causa pesar. Nossos verdadeiros bens são as coisas da floresta: suas águas, seus peixes, sua caça, suas árvores e frutos. Não são as mercadorias! ...”

As pedras, a água, a terra, as montanhas, o céu e o sol nunca morrem, como também os xapiri. São seres que não podem ser destruídos e que dizemos parimi, eternos. O sopro de vida dos humanos, só contrário, é muito curto. Vivemos pouco tempo. Epidemias xawara, espíritos maléficos e feiticeiros inimigos nos devoram facilmente. Por isso pensamos em nossos próximos e nas pessoas de quem somos amigos. Pensamos que se eles morressem, iríamos nos arrepender de não termos sido generosos o bastante com eles. Dizemos a nós mesmos: ‘Hou! Por falta de sabedoria fui tão sovina! Não satisfiz seus pedidos e agora essa lembrança me entristece!’ E depois, sabendo que nós mesmos não vamos demorar a morrer, não queremos também deixar para trás objetos cuja visão só vai deixar os nossos aflitos.”


“... quando conseguimos miçangas com os brancos. Ficamos com elas muito pouco tempo antes de escaparem para longe de nós! Primeiro as repartimos entre o pessoal de casa. Depois, basta sermos convidados a uma festa reahu por nossos aliados do rio Toototobi para as trocarmos com eles por outros objetos. Em seguida o pessoas do Toototobi vai visitar os Weyuku thëri que vão levar nossas miçangas mais longe ainda, rio acima, para outros Xamathari das terras altas que são seus aliados. Elas acabam chegando assim até a gente do rio Siapa, como nossos facões! No final, elas terão viajado para bem longe de nós, acompanhadas de boas palavras a nosso respeito: ‘Awei! São gente generosa mesmo, são amigos! Eles são muito valentes, é por isso que demonstram tanta largueza!’¹ Quando os moradores dessas casas distantes ouvem essas belas palavras, logo pensam que seria bom abrir uma senda nova na floresta para vir visitar nossa casa e obter os bens que desejam de nossas mãos. Dão-lhe então o nome de ‘caminho de pessoas generosas’.”

1. Os Yanomami associam fortemente valentia, humor e generosidade. (Nota de Bruce Albert).


In: A queda do céu, Davi Kopenawa e Bruce Albert, Companhia das Letras

2.7.16

A prática de ioga cura a ansiedade¿

Esta é uma pergunta que muitos dos alunos trazem ao começar a prática; eu acredito que antes de responder um sim categórico é preciso pesquisar o que é a ansiedade, de onde vem esse sentimento tão comum nos dias de hoje e que tanto sofrimento nos causa. Tenho ouvido muito que ansiedade é excesso de futuro, mas acho essa explicação meio simplista; concordo que uma das características dessa emoção é a pré-ocupação constante com o amanhã, mas de onde vem esse sentimento¿
Na ansiedade estamos sempre tentando controlar os acontecimentos, bem como nossas reações a eles, nossas emoções, o que gera uma constante tensão no corpo e na mente; tentamos controlar porque temos medo de falhar, de perder algo, de não sermos bem sucedidos o bastante, amados o bastante, bons o bastante. Nossos tempos são impiedosos com aqueles que não ostentam o padrão de realização imposto pela sociedade e por isso desde cedo somos pressionados e pressionamos nossas crianças a fazer mais, se destacar mais, não ficar para trás. Esta é uma fonte tremenda de ansiedade, mas há ainda muitos outros fatores: muitas vezes atravessamos períodos em que nos sentimos ameaçados, seja na infância se crescemos em meio a situações difíceis, ou em algum outro momento aonde tivemos que estar constantemente preparados para um perigo iminente. Creio ser importante analisarmos estes fatores, encará-los de frente e ter a consciência que esse momento passou; hoje como adultos podemos lidar de uma forma mais serena com as expectativas, as cobranças e mesmo com as situações em que nos sentimos ameaçados.
Mas esse é o primeiro passo, pois mesmo trazendo para a consciência as raízes de nossa ansiedade, nosso corpo ainda guardará a memória da nossa história...e aí entra a yoga. Ao fazermos as posturas de yoga não estamos apenas trabalhando o corpo físico, mas estamos trabalhando nossos canais energéticos – que a yoga chama de nadhis, e a medicina chinesa de meridianos; estamos permitindo que a energia bloqueada neles comece a ser liberada. Por isso é tão importante observamos nossas sensações, pensamentos e emoções enquanto praticamos; eu particularmente não acredito que a simples execução mecânica das posturas, sem a consciência possa trazer um real benefício para a libertação da ansiedade, ou de qualquer outra emoção aflitiva que carregamos. Por essa razão sempre insisto com os alunos em fazer devagar, sem esforço (pois aí entramos na competição alimentando ainda mais a ansiedade) e observando o que surge, sem julgar, apenas percebendo.
            Os meridianos relacionados com a ansiedade são Estômago e seu par, o Baço-Pâncreas, ligados à energia da terra, ao centro do nosso corpo, à sensação de estar com os pés no chão, apoiados, protegidos pela Grande Mãe. Voltar ao nosso centro é desenvolver presença, estar no Agora,  esse é o grande antídoto contra a ansiedade e o trabalho sobre esses meridianos pode nos auxiliar muito nessa “volta para casa”.
            Outra grande aliada na mudança do estado ansioso é a respiração; simplesmente passar 2-3 minutos por dia, de manhã e à noite observando a respiração, levando-a até o abdômen já traz um efeito extremamente benéfico, mas, sobretudo, reflita na raiz de sua ansiedade e jogue a luz da consciência sobre o que até então era um comportamento automático.
            Deixe abaixo suas dúvidas, críticas e comentários, assim poderemos refletir juntos!